Cinema, escola e interdisciplinaridade: Fugindo das matrizes

Uma aventura pelo incerto, buscando outros caminhos e alternativas que procurem modificar e melhorar.


Cena do filme Matriz, pessoa colorida em códigos verdes.

Fazenda, que tem a interdisciplinaridade como símbolo fundamental de sua vida profissional, identifica-a com uma nova atitude nesse encontro com o conhecimento; o ineditismo encontra-se nos aspectos já conhecidos (currículo, cotidiano, educação, formação, linguagem, memória, trabalho, tempo, espaço, etc.), através das buscas de novas qualidades neles presentes, novas combinações de seus componentes e/ou novos sentidos para seus objetivos, fazeres, na ação do ensinar e do aprender individual e em parceria. Projeta ainda luz em outros (metáfora, ambigüidade, fronteira, símbolo, histórias de vida, etc.), desconsiderados e/ou desvalorizados no campo científico e educacional, por inúmeros e complexos fatores dos contextos da realidade, que podem ser explicados no atual tempo da humanidade, nesse outro espaço interdisciplinar. (PEREIRA, 2006, p.172)

Você tem diante de si duas alternativas, ou se contenta com tudo o que existe nesse mundo e permite a continuidade das coisas como estão estruturadas ou resolve buscar outros caminhos e alternativas que procurem modificar e melhorar, dando maior autonomia e independência para sua vida e a de todas as outras pessoas. Aquele jovem tinha poucos segundos para dar a resposta a um dilema que poderia envolver o futuro de toda a humanidade. Aparentemente pairavam em suas mãos a resposta para os dilemas de milhões de seres humanos. Diante de si estavam duas pílulas, uma azul e outra vermelha. A azul representava a estabilidade, o mundo como ele conhecia até então, onde os acontecimentos lhe eram peculiares (ou pelo menos pareciam ser). A vermelha significava uma revolução, a entrada na zona de desconforto total, uma aventura por mares nunca antes singrados, a contestação da ordem e da estabilidade aparente. A azul mantinha ocultos os segredos da Matrix. A vermelha lhe permitiria entender o funcionamento do mundo em que vivia. O que ele deveria fazer? 

 

Manter-se dentro da caverna e continuar a ver o mundo a partir das sombras ou se arriscar a ver o mundo e suas luzes mesmo que isso ofenda nossa visão num primeiro e doloroso encontro. Devem-se repetir as consagradas fórmulas clássicas que por tantos e tantos anos embalaram as aulas de gerações de brasileiros ou temos que modificar a escola, alterar-lhe os rumos, dar-lhe novas alternativas, revitalizar o trabalho educacional? O dilema de Matrix repete o drama da Alegoria da Caverna do grego Platão. O cinema internacionaliza a filosofia e permite a milhões de espectadores do mundo todo que conheçam, mesmo que de forma não  referencial, a sabedoria de um dos maiores filósofos de todos os tempos. Será que a nossa formação escolar nos permite ir além do jogo de luzes, efeitos e dramaticidade daquele filme para que possamos refletir a respeito das lições de mestre Platão? E por que não conseguimos ir além das aparências e das mensagens mais óbvias e evidentes que nos são transmitidas todos os dias através dos filmes, telejornais, jornais, revistas, músicas, peças teatrais, obras de arte ou aulas? E o que nos faz optar cotidianamente pela pílula azul em detrimento da vermelha? Já parou para pensar que até mesmo na cor das pílulas do filme dos irmãos Wachowsky há uma brincadeira que deveria nos motivar a reflexão? Somos lineares. Não conseguimos tergiversar. Aprendemos na escola a pensar nos conformes dos ditames que nos são passados constantemente como autênticas ladainhas. Falta-nos a capacidade de expandir o olhar, buscar o navio no horizonte, o avião nos céus e tentar entender como é possível alçar vôo ou aonde chegarão aqueles marinheiros... Seres unicelulares nos precederam nessa Terra. Derivamos de todo um processo evolutivo. Tornamo-nos a principal espécie a habitar o planeta. E retornamos ao pensamento linear através da disciplinaridade. Abandonamos a multiplicidade dos gregos. Esquecemos as lições de Platão ou Aristóteles. Vivemos todos os dias o dilema do personagem de Matrix e nem nos  damos mais conta disso, ou seja, continuar literalmente "vegetando" numa vida sem graça, toda certinha, com horário estipulado no escritório e o salário certo do fim do mês ou abandonar tudo em função de suas atividades como hacker revolucionário que combate o sistema e tenta libertar-se? Mas, o que é a nossa Matrix? Para melhor compreender esse conceito, nada melhor do que pensar a partir da idéia do próprio filme... 

 

Matrix é um sistema, no qual estamos todos inseridos e através do qual somos todos explorados, sendo de nós retirada uma considerável "mais-valia", um lucro precioso, proveniente de nossa energia vital, de nossa capacidade de trabalho, criação, fantasia e prazer. Cabe a Neo desvendar o funcionamento desse sistema operacional e destruir as bases dessa escravidão contemporânea, para isso, acaba tendo que enfrentar forte oposição de um "estado" repressor, que persegue os que conseguem pensar fora de suas diretrizes e de suas leis. (MACHADO, 2004) 

 

Nas escolas também estamos de mãos amarradas. Estamos acorrentados a programas e a disciplinas que pouca ou nenhuma mobilidade permitem. Vemos a nossa mais-valia ou energia vital sendo extraída de nossos corpos sem que consigamos fazer da educação um elemento de libertação que conceda aos educandos possibilidades reais de criação, fantasia, prazer ou ainda de um trabalho que lhes dê algo mais do que simplesmente um salário e a possibilidade de sobreviver ao final de cada mês. 

 

 

 


João Luís de Almeida Machado

João Luís de Almeida Machado

Consultor em Educação e Inovação, Doutor e Mestre em Educação, historiador, pesquisador e escritor.

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