O custo da desonestidade

Seja no setor público, privado ou simplesmente na vida pessoal, a corrupção está em todos os lugares. A desonestidade virou uma doença, corrompendo o comportamento ético das pessoas.


Uma mão sobre a bandeira do Brasil em um chão quebrado

As manchetes dos jornais, diariamente, trazem à tona vários casos de desonestidade explícita. No setor público, privado ou simplesmente na vida pessoal, não faltam infelizes relatos de pessoas que abandonaram por completo a idoneidade, a preocupação com seus nomes, qualquer tipo de decoro ou responsabilidade pessoal ou profissional em troca de algum tipo de benefício mais imediato.

São casos como o de uma instituição de ensino superior que abriu mão de ensinar o que deveria, com foco na formação de futuros graduados que logo estarão no mercado, para conseguir preparar seus alunos com o objetivo de atingir notas altas em exame governamental e qualificar a instituição perante o MEC e o mercado. Não bastasse isso, coagia os alunos a preencherem questionários com dados que não demonstravam a realidade daquela escola e, ainda, quando suas instalações eram visitadas por profissionais que iam fiscalizar suas dependências e checar seus equipamentos, trazia recursos da noite para o dia e, feita a fiscalização, os devolvia sem que, dessa forma, realmente tornassem viáveis melhores laboratórios, bibliotecas, salas de estudo ou de aula...

Ainda dos jornais, vem a notícia de profissionais que trabalham em jornada dupla, o que a princípio não deveria ser problema, a não ser pelo fato de que assumem compromissos fora do seu emprego regular, vinculado ao serviço público, sendo portanto concursados ou selecionados em processos militares, nos horários em que deveriam estar cumprindo suas horas de trabalho para a população e os empreendimentos nos quais estão atuando... Ganham duas vezes porque matam um serviço para realizar o outro sem deixar de receber o primeiro...

Poderíamos pensar em outros tantos casos, iguais ou semelhantes aos que foram narrados, histórias verídicas de pessoas que reclamam dos governantes, da corrupção e da desonestidade alheia sem que atuem de forma lícita, justa e correta naquilo que lhes cabe e compete. Rasgados falando de remendados, conforme o dito popular. Gente que não está se olhando no espelho e vendo o quanto ações como estas prejudicam a si mesmas e a comunidade como um todo...

Se pensarmos apenas no que representam atos como estes, analisando, por exemplo, os valores da corrupção no Brasil, que conforme pesquisas recentes, representam 8% de toda a riqueza produzida no país, ficaríamos sabendo que cada brasileiro paga o equivalente a quase um mês de seus rendimentos para bancar os esquemas ilícitos de corrupção que ocorrem no país (de acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário – o IBPT – são exatos 29 dias).

Na prática os brasileiros trabalham perto de 5 meses do ano para pagar a elevadíssima carga tributária brasileira, uma das maiores do mundo e, 1/5 deste total vai para os bolsos de corruptos... O que seria possível fazer com este dinheiro a mais no seu orçamento se você o tivesse em mãos? O que o governo poderia fazer com este montante desperdiçado, que vai parar nas mãos de desonestos dos setores públicos e privados, em termos de novos investimentos para melhorar a saúde, educação, transportes, energia, habitação, segurança ou empregos?

Se formos um pouco adiante neste raciocínio perceberemos que o dinheiro desviado poderia melhorar os serviços públicos, aumentar rendimentos de servidores ou, simplesmente, garantir que remédios cheguem nos hospitais e livros ou computadores cheguem nas escolas...

O volume subtraído por meio da corrupção poderia ajudar a pagar a dívida pública ou, ainda, poderia ajudar as famílias mais pobres a viver com mais dignidade com o apoio de bolsas sociais...

Os engodos praticados em esferas privadas, para não ficarmos apenas na corrupção no setor público, por exemplo, fazem com que obras tenham orçamentos superfaturados ou que, ao invés de utilizar materiais em qualidade e quantidade equivalentes ao que foi demonstrado em orçamentos, se utilizem recursos inferiores ou mesmo em menor quantidade do que aquilo que foi prometido, desta forma fazendo com que prédios possam desabar, pontes enferrujar e ruir ou, ainda, que na esteira disso tudo, pessoas percam suas vidas...

Uma instituição de ensino que finge fazer o seu trabalho, de realizar a formação devida de alunos em diferentes níveis, causa prejuízos consideráveis para o futuro destes alunos e do país. Pessoas que não sabem ler adequadamente, de modo fluente, assim como não têm o conhecimento que deveriam das ciências, da matemática ou das humanidades, acabam se tornando profissionais que irão ingressar no mercado de trabalho sem a devida preparação para os desafios que se impõem, em especial num mundo globalizado como aquele em que vivemos. Perdem estas pessoas, as empresas em que trabalham e o país inteiro, superado por outros, nos quais a educação é prioridade real e não apenas nos discursos dos políticos.

Quando profissionais deixam de fazer seu trabalho numa repartição pública para atuar na esfera privada, como num dos casos mencionados neste artigo, o que estão a praticar é o roubo descarado do erário público. Recebem pelo que não cumpriram, como se tivessem estado lá, sendo que no horário previsto para realizarem suas obrigações previstas, estão alhures, em outra localidade, recebendo dinheiro a mais que, por lei, não poderiam estar recebendo...

Talvez Nélson Rodrigues, em seus relatos da obra “A vida como ela é”, na qual apresenta os escândalos e traições do cotidiano apenas retrate o que o ser humano realmente é, em sua vileza e capacidade de fazer maldades e desonestidades sempre a esperar que ninguém saiba, perceba ou o pegue em seus descaminhos e desmandos. Por vezes pensamos que isso seja mundial, mas em alguns países civilizados, como a Suécia, o Canadá, o Japão, a Austrália e alguns outros, a incidência de casos é ínfima, com as pessoas agindo, na maioria das vezes, de forma correta.

Talvez seja algo do Brasil, pensamos por vezes, onde todo mundo quer levar algum tipo de vantagem sempre, mas daí ficamos sabendo de casos e mais casos de corrupção e desonestidade em diferentes países e percebemos que não é algo que seja específico daqueles que nascem nestas bandas.

Certo é que o custo de tudo isso e altíssimo. Também é correto afirmar que há pessoas decentes e honestas no Brasil e em países nos quais, infelizmente, a corrupção parece parte da cultura estabelecida. Combater de forma constante estes desvios é algo a ser feito hoje e sempre e, no que tange a escola, o compromisso de ensinar a correção, a licitude, a honestidade e o comportamento ético e cidadão é premente e urgente. Tomara que consigamos reverter todo este infeliz quadro de desonestidade epidêmica que nos rodeia... Pelo bem de cada um dos brasileiros e do país inteiro!


João Luís de Almeida Machado

João Luís de Almeida Machado

Consultor em Educação e Inovação, Doutor e Mestre em Educação, historiador, pesquisador e escritor.

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