Menina usando binóculos na floresta

Contratar bons professores está no topo entre os maiores problemas percebidos por mantenedores de escolas privadas no Brasil, de acordo com pesquisa encomendada pela Revista Educação e realizada pelo Instituto Data Popular. Foram consultados 82 gestores de escolas privadas brasileiras, distribuídas por 13 estados do país, sendo que 3/4 delas estão localizadas em São Paulo.

O problema é sério e se repete ano após ano para 63% dos gestores consultados na pesquisa. Para 28% dos entrevistados a questão é ocasional, mas existe e preocupa também tal grupo de profissionais. Cerca de 9% dizem que a situação é rara para eles, ou seja, demonstram satisfação com o grupo docente que está com eles e tem uma estabilidade em relação aos professores que atuam em suas escolas.

Tudo isso nos conduz a uma pergunta importante a ser respondida no que se refere a este problema percebido pelos gestores: O que faz de um professor um profissional qualificado?

Inicialmente a resposta pode estar relacionada a formação do docente. E, isso, certamente é um diferencial. O percurso formativo do docente passa, necessariamente pela universidade que cursou, pelos docentes e currículo que teve durante sua graduação, se sua formação foi licenciatura ou bacharelado (o que, neste caso, exigiria uma formação complementar para lecionar), se fez alguma especialização, se tem mestrado ou doutorado, se continua estudando…

Manter-se sempre em estudos, fazendo novos cursos, especializações presenciais ou online, é algo igualmente esperado. Há muitas oportunidades para quem quer se aperfeiçoar, conhecer mais, atualizar-se em relação a sua área de conhecimento específica ou as temáticas de caráter pedagógico. Se o docente se apresentar para uma vaga sem ter feito pelo menos um curso ou alguma atualização nos últimos 6 a 12 meses, é preciso pensar muito se valerá a pena contratar este profissional, é o que dizem os especialistas em recursos humanos. Atualização e estudo permanente são, portanto, itens fundamentais para quem quer ser reconhecido como profissional de qualidade em qualquer mercado, inclusive em educação.

Os antecedentes profissionais precisam ser rastreados para que se acerte na busca pelos melhores professores para uma escola. Por vezes, o currículo é ótimo, o profissional tem uma formação excelente, tendo passado por boas escolas e continuado a estudar, fazendo novos cursos. Uma parte do caminho foi cumprida, é preciso ver se, no entanto, em campo, ou seja, na atuação cotidiana nas escolas pelas quais ele passou, o comportamento foi exemplar, adequado, dentro do esperado.

O que significa isso?

Na prática significa verificar se o professor trabalha bem em grupo, se é colaborativo, se cumpre horários, se respeita as normas e diretrizes da escola, se é pontual nos seus compromissos, se está disponível para reuniões adicionais, se trabalha bem a questão hierárquica dentro da instituição de ensino, se é qualificado mas humilde, se respeita os demais… São características relacionadas ao caráter da pessoa, aos valores e a ética pessoal e profissional que não aparecem no currículo e que, sendo assim, são observáveis no dia a dia do trabalho, na convivência entre as pessoas.

Por isso é preciso entrar em contato com as outras escolas e gestores com os quais tal profissional esteve ativo. O professor qualificado terá, da parte de seus diretores, coordenadores e mantenedores uma boa avaliação se foi correto no tratamento com colegas, gestores e pais ou responsáveis, assim como se demonstrou pela escola onde atuava a necessária responsabilidade, comprometimento e qualidade de trabalho.

Profissionais da área de educação qualificados têm que, também, ler muito, de forma ampla, não apenas localizada nos conteúdos e áreas de seu saber específico; atualização é também demanda necessária e permanente, ler revistas e jornais, acessar sites informativos ou especializados são premissas obrigatórias; precisa participar de eventos em educação, como feiras, palestras e simpósios; tem que ter uma vida cultural rica, que inclua, além das leituras, o contato com ambientes e produções como museus, cinema, teatro, dança, música…

Outra demanda muito importante e atual em relação aos docentes qualificados a serem buscados pelas escolas se refere ao uso e interesse pelas tecnologias educacionais. Professor do século XXI tem que, necessariamente, conhecer e utilizar não apenas os recursos de hardware e software, mas se informar e formar para o uso de novas metodologias de trabalho, que incluam as tecnologias sem deixar de lado recursos e práticas utilizadas anteriormente que, é certo, ainda podem ser muito úteis.c

Quando se estipulam todos estes diferenciais para a contratação de um profissional de educação qualificado é certo que surgem dúvidas relacionadas a existência de uma boa quantidade de docentes com tal perfil no mercado.

Infelizmente não é o que acontece. O currículo das faculdades de educação e, consequentemente, a formação oferecida por elas deixa a desejar; os egressos nos cursos de pedagogia e licenciaturas têm formação fraca, com pouca leitura e formação no ensino básico que deixa a desejar; a busca pelas áreas relacionadas a educação não é foco dos melhores alunos, conforme revelam pesquisas, em virtude das condições gerais de trabalho e dos salários baixos, comparativamente com profissionais de outras áreas que concluem o ensino superior.

Ao se formarem e entrarem no mercado de trabalho não há exames que avaliem a qualidade dos novos professores, como ocorre em algumas outras áreas de atuação profissional, como o Direito, a Engenharia ou a Medicina. Os novos profissionais entram nas escolas sem conhecer direito a realidade e com falhas evidentes no conhecimento teórico, sendo assim, torna-se difícil para eles oferecer um perfil realmente diferenciado e qualificado. Há ainda as disparidades regionais que fazem com que os melhores professores se estabeleçam nas regiões Sul e Sudeste.

Em suma, há problemas e é preciso mudar desde a formação até as políticas de benefícios e salários para que os professores tenham melhor preparo e maior incentivo para realizar o trabalho docente. Exemplos como aqueles dados por países como a Finlândia, um dos países referenciais em educação no mundo, em que os professores têm que ter – no mínimo – mestrado, são avaliados em relação a sua capacidade de trabalho e são remunerados em conformidade com outras profissões, tendo amplo reconhecimento social, é algo que devemos perseguir. Somente assim esta situação da contratação docente deixará de ser uma grande preocupação para as escolas particulares e seus docentes e, certamente, com grande repercussão também no segmento público.

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