Prova pra quê?

A preparação dos jovens para o mercado versus desenvolvimento da autonomia de seres humanos


Menino com raiva, com a mão no rosto e o pulso cerrado

Lembro-me ainda do dia que entrei na primeira série, senti todos os medos, porque na pré-escola era tudo brincadeira e agora eu tinha que estudar de verdade. Lembro-me do lugar que sentei e da professora, mas o que mais me recordo era o medo das provas. Era um medo que chegava a doer, eu tinha que ser boa, precisava provar que eu era boa e então veio a aflição, a ansiedade e o desespero. A primeira prova demorou para acontecer e eu mal dormi na noite anterior à da prova.

Anos passaram e as provas ainda existem e o medo, a aflição, a ansiedade e o desespero ainda rondam os alunos. Fazer prova não é agradável, não prova que conhecemos algo ou que precisamos melhorar em algo. Provas servem para testar mais a nossa resiliência emocional que nossos conhecimentos.

E hoje, me pergunto: Se já constatamos que elas não funcionam para verificarmos o nível de conhecimento, por que ainda aplicamos provas? Por regras prévias de um sistema de ensino, por ser o método mais rápido de verificar o que o aluno sabia ou tinha decorado, por ser mais fácil que corrigir trabalhos de leitura extensa ou não termos muita paciência para a elaboração de seminários ou porque são fatos físicos reais que comprovam o que o aluno sabia em tal data?

Lembro-me de mais um fato interessante: Tive uma professora na sétima série, que lecionava ciências. Ela era a professora que tinha apenas um livro, um giz e uma lousa e essa era sua aula. Ela nunca nos explicou nada. Sempre fez questão de encher as lousas de conteúdo. Mas era uma boa pessoa, até o dia da prova. Aliás, dias antes, pediu que estudássemos, mas não queria que ninguém decorasse. Assim fizemos. As notas de todos os alunos foram as chamadas “Notas Vermelhas” e vimos pela primeira vez a boa professora de ciências enfurecida, disse que deveríamos ter estudado. Em nossa defesa, um dos alunos da sala levantou, pegou sua prova, com suas notas em vermelho sangrento e disse:

- Professora, nós estudamos, mas a senhora pediu para não decorar, fizemos então da maneira que a senhora quis. Apenas lemos o que a senhora escreve na lousa.

A professora, num misto de perplexidade, raiva e indignação disse que se para tirarmos boas notas, tínhamos que decorar textos, era isso que faríamos a partir de então. E assim fizemos. Ainda lembro que decoramos sobre a função do suco biliar e todos tinham a resposta na ponta da língua. E desta vez, tivemos excelentes notas. Quase toda a sala tirou 10. Mas tenho certeza que, de fato, ninguém até hoje sabe o que é e qual a função do suco biliar.

O desgaste da decoreba, da pressão por avaliações e por resultados mensuráveis não garante uma prova real que um aluno aprendeu.

O que garante que o aluno aprendeu é a mudança de postura, é a experiência concreta, é saber colocar em prática o que aprendeu. Portanto, mais que provas com 10 perguntas bem estruturadas, algumas respostas mal sucedidas e muita aflição em torno, precisamos reelaborar as nossas provas baseadas na prática concreta do aprendizado. Um bom exemplo disso é quando aprendemos a dirigir, os alunos passaram pela experiência da prova escrita, mas para estarem aptos e serem conhecedores do assunto, precisam ser avaliados de forma prática, precisam ligar o carro, sair com ele, observar a sinalização, dar setas, fazer a rampa e estacionar o carro.

Enfim, muito além da teoria, os alunos deste século precisam ser avaliados pela prática real de seus conhecimentos. E isso demanda trabalho e organização dos professores.


Gisele Vitório

Gisele Vitório

Coordenadora pedagógica em instituição de ensino profissional, consultora educacional e formadora internacional da Aprendizagem Sistêmica-Kagan no Planneta Educação, empresa do grupo Vitae Brasil. Já atuou como professora técnica, expositora e facilitadora de aprendizagem em oficinas de simpósios e eventos internacionais de educação.

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