Educação brasileira: excluindo ao invés de incluindo...

Falta de prioridade na educação, exclui crianças das escolas


a mão de uma pessoa negra escrevendo no caderno

“A educação no Brasil é uma máquina de exclusão. De cada cem crianças que ingressam na escola, só 65 concluem o Ensino Médio. Dessas, apenas 18 aprendem português adequadamente, apenas cinco assimilam matemática como deveriam e só sete seguem rumo à faculdade.” ( A educação no Brasil é uma máquina de exclusão , artigo de Priscila Cruz e Rodolfo Araújo, do movimento Todos pela Educação, disponível no site da Revista Época Negócios)

Paulo Freire, na obra “Cuidado, Escola!”, publicada entre o final dos anos 1970 e início da década seguinte, na qual foi organizador, já nos alertava, de forma lúdica, pois este livro foi constituído a base de charges, do nível de exclusão promovido pela educação brasileira. Estamos falando, portanto, de um ciclo pernicioso de exclusão que contabiliza não apenas alguns anos, mas décadas e que, com isso, lega ao país uma aparentemente insuperável condição de atraso em relação aos países desenvolvidos.

Este atraso, diga-se de passagem, afeta não apenas a economia, tanto no que diz respeito a aspectos macroeconômicos, ou seja, tornando difíceis as possibilidades do país competir em pé de igualdade com outras nações por conta de sua mão de obra com formação débil, quanto nos microeconômicos, naquilo que se refere a vida de cada pessoa e família da nação, afetadas pelo nanismo do gigante (realmente) adormecido em virtude de sua deficitária educação.

O rombo, no entanto, é ainda maior se contabilizarmos prejuízos outros advindos desta educação rala e pobre oferecida no Brasil. A violência que atinge índices recordes no país, registrados por levantamentos divulgados pelo IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Avançadas) que contabiliza, com dados relativos ao período de 2006 a 2016, mais de 550 mil mortes no país somente em decorrência de homicídios. Estes números são extremos e, quando comparados a Europa, revelam que a quantidade de mortes por homicídio no Brasil é 30 vezes maior, no período, do que a soma de todos os países europeus juntos. A violência é resultado da falta de oportunidades, do despreparo para o mercado de trabalho, do desemprego, da falta de valores, de ética, de cidadania e, é claro, de cultura e educação. Quanto menor a escolaridade, comprovam as pesquisas, maior a chance de desemprego, subemprego ou de rendas mínimas ou, ainda, de ingresso em gangues, facções criminosas e de participação em atividades ilícitas para conseguir aumentar os parcos ganhos mensais.

E, para piorar, os dados auferidos pelo MEC por meio de suas avaliações da qualidade de ensino no país não são nada animadores. Os índices de proficiência em leitura, matemática e ciências para os alunos brasileiros revelam despreparo, falta de habilidade e competência para o pleno exercício daquilo que se espera quando completam diferentes ciclos ou faixas etárias. A Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), de 2016, por exemplo, revela que 55% dos alunos do 3º ano do Ensino Fundamental não atingiram o que se esperava para esta idade no que tange a leitura. Se não bastasse isso, o acesso a educação, problema que os governantes apregoaram já estar solucionado, persiste, em especial entre os adolescentes e jovens, que abandonam os estudos no Ensino Médio e não avançam rumo a universidade ou a formação técnica. São mais de 2,5 milhões de estudantes fora da escola, em especial, no Ensino Médio, o que repercute tanto em termos de ociosidade quanto em violência. Os maiores índices de violência e desemprego afetam, principalmente os jovens brasileiros e, é certo que, isso não é coincidência apenas, tendo relação com sua formação incompleta, irregular e de baixa qualidade. Quem avança nos estudos tem menos dificuldade para conseguir estágios, entrar em boas empresas, criar seus próprios empreendimentos...

As questões relacionadas a ética e aos valores igualmente repercutem entre tais jovens saídos precocemente das escolas, com formação fraca, pois fazem com que eles não tenham desenvolvido a inteligência interpessoal, ou seja, a capacidade de se relacionar bem com os outros, gerando empatia, mobilizando os demais, se mostrando aptos a ouvir e a se expressar de modo claro e inteligente para que atinjam seus objetivos e sejam capaz de resolver problemas. O despreparo educacional e cultural faz com que estas pessoas não entendam, valorizem ou participem da forma como deveriam da vida em sociedade, compreendendo os diferentes papéis e responsabilidades atribuídos a todos e a cada um de nós.

São os custos, altíssimos, da educação de qualidade duvidosa ou ruim, muito mais elevados do que os investimentos necessários para que se implemente, de fato, educação de boa qualidade e que, com isso, seja possível superar os estigmas sociais, a desigualdade crescente, os guetos culturais e sociais existentes no país. Vale lembrar que, diferentemente de programas sociais que ajudam temporariamente a solucionar as questões de sobrevivência mais imediata dos cidadãos, dando alimento a quem não tem condições de adquirir, educação de qualidade oferece, aos educandos, maiores possibilidades de superar as mazelas por ter tido acesso a recursos, elementos, informação e conhecimento que lhes possibilitem criar meios para não apenas subsistir, mas ter uma existência digna, com qualidade de vida.

A recente greve dos caminhoneiros expôs problemas estruturais que afetam a economia nacional e restringem seu crescimento. Demandam atenção das autoridades e da sociedade civil para que, em pouco tempo, o país não fique refém do monopólio do transporte de cargas por meio de rodovias e caminhões. O que ficou patente, também, se bem que nas entrelinhas, com tantas notícias divulgando o quanto tal paralisação prejudicou a economia nacional, com o fechamento de indústrias, lojas, serviços e com a produção agrícola e pecuária tendo que ser distribuída ou jogada no lixo, é que o país é pleno em riquezas e potencialidades desperdiçadas por conta da baixa escolaridade e educação de seu povo.

Do mesmo modo que, a corrupção, outra chaga que assola a nação, ocorrendo entre políticos, servidores públicos e população, nos pequenos atos do cotidiano ou nos grandes golpes que ocorrem em empresas públicas ou privadas, poderia ser combatida e perderia força se a população tivesse acesso a uma melhor educação nas escolas e, com isso, fosse capaz de não apenas extirpar do poder e exigir a punição adequada aos políticos corruptos, mas também de agir de modo mais correto, fazendo com que a cultura que ainda prevalece, do “jeitinho brasileiro”, desaparecesse de cena, dando lugar a um povo mais honesto, correto, ético e lícito.

São considerações mais do que necessárias no que tange a buscarmos e realizarmos uma educação de qualidade e não uma educação excludente, com indicadores lamentáveis no tocante a formação das gerações que futuramente irão assumir o comando da nação e que, no ritmo atual, irão apenas dar continuidade ao desmazelo e a desesperança, caso não sejam tomadas as devidas providências em prol de uma educação forte e qualificada no Brasil.


João Luís de Almeida Machado

João Luís de Almeida Machado

Consultor em Educação e Inovação, Doutor e Mestre em Educação, historiador, pesquisador e escritor.

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