Desistir é uma opção?

A suíça Gabriela Andersen não desistiu e foi até o final da maratona apesar do esgotamento físico e se tornou um símbolo olímpico relacionado a resiliência e força nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984


A suíça Gabriela Andersen correndo até o final na maratona, foto está em preto e branco.


“Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam.” (Henry Ford)

Confesso, as vezes também tenho vontade de sumir do mapa. Por vezes somos tão requisitados, os compromissos crescem tanto em volume, que temos a impressão de que não iremos dar conta e, com isso, tememos decepcionar alguém.

Não pense que é só você que passa por isso. Até mesmo algumas das pessoas mais incríveis que você conhece ou admira também se sentem assim. O fracasso no horizonte, ainda que não exista certeza se iremos mesmo fracassar, faz com que tenhamos receio dos próximos passos e nos acovarda, nos faz buscar a zona de conforto, aquela em que queremos estar para que todas as responsabilidades que nos são cobradas fiquem para trás.

Esta é certamente uma opção. Em alguns momentos ela pode até mesmo ser a mais sensata, como por exemplo quando o general, a frente de seu exército, no campo de batalha, em minoria diante de seu inimigo, tem que bater em retirada. Também acontece com pessoas comuns, como professores ou médicos, entre tantos profissionais, quando percebem que por maiores esforços que possam fazer estão diante de alguma batalha perdida. Resistir, nestes casos, não é prova de força e resiliência, mas de falta absoluta de bom senso.

Desistir, no entanto, não é opção quando, por maior que pareça o inimigo ou o desafio que você tem diante de si, há respostas que podem resolver o seu problema ainda que difíceis ou quase impossíveis, pelo menos aparentemente. Passar nos mais concorridos exames vestibulares ou entrar num concurso público para promotor ou juiz, por exemplo, é muito difícil. Por vezes as pessoas envolvidas levam alguns anos para lograr êxito nestas disputas. Mas se é algo que elas realmente desejam, por maiores que sejam os obstáculos e por melhor que seja a concorrência, estas pessoas continuam estudando e se preparando para atingir o grau necessário de excelência que os leve a posição que almejam.

Quando estava fazendo meu doutorado, em meio ao trabalho, aos compromissos familiares, as contas para pagar, a correria para diferentes cidades onde estudava ou trabalhava, a produção da tese e tudo o mais, pensei em desistir. Já estava envolvido com o doutorado há 2 anos, tinha percorrido metade do caminho... Fui então conversar com meu orientador. Ele então destacou a trilha já percorrida, os ganhos que vieram de todo o esforço, a necessidade de ganhar fôlego trocando de tema (passei de cinema na escola, que continuava depois do mestrado, para blogs na formação de professores, assunto em que estava mais interessado naquele momento) e, principalmente, me deu uma grande injeção de ânimo ao dizer que o doutorado seria importante para minha vida, mas que não seria minha mais expressiva colaboração para a educação. Com isso ele afirmava sua confiança em mim, dizia que todo aquele esforço tinha valor real, que seria proveitoso não só para a minha pessoa, mas para outras, através dos trabalhos futuros que eu poderia realizar e que o doutorado me ajudaria a concretizar.

Foram palavras importantes. Me atingiram e me fizeram reagir, acreditar mais em mim, levar adiante aquele projeto, aquela etapa de minha formação até o final, até a titulação. Não foi nada fácil, mas segui e realizei aquilo que me propus a fazer. Tive que abdicar de horas de lazer, da companhia da família em determinados momentos, de mais horários de trabalho e rendimentos, enfim, de muitas coisas, assim como sei que, para isso, minha esposa e filhos, amigos e parentes, também tiveram que ficar sem mim em tantos momentos daquela jornada.

Valeu a pena, tenho certeza disso. Apesar da carga muito pesada, era possível chegar ao final desta intensa jornada de estudos e, ao final, defender a tese com êxito, como fiz.

E nem precisa ser um super-herói, coisa que definitivamente não sou, para chegar lá. Basta força de vontade, obstinação, dedicação e, é claro, organizar-se para tal. Ter disciplina é igualmente essencial, caso contrário, em alguns momentos, o lazer, por exemplo, pode nos fazer sair da trilha programada e nos atrasar, diminuir o ritmo, perder prazos, não realizar as entregas e... decepcionar alguém, entrando em colapso em relação aos planos e, com isso, pensar em desistir...

Alguns dos grandes realizadores do mundo contemporâneo, como Walt Disney ou Steve Jobs, em determinados momentos de suas carreiras, ficaram sem rumo. Isso é fato. Disney faliu em suas primeiras iniciativas como empresário do ramo de animações. Jobs foi demitido da empresa que criou, a Apple. Ambos tiveram que começar tudo do zero, repensando suas estratégias, modo de ser, relações, projetos, iniciativas e, ao se reconstruírem depois do vendaval, começaram a criar o que hoje tantas pessoas no mundo inteiro admiram, as empresas Disney e Apple, dois dos maiores conglomerados do mundo nas áreas de entretenimento e tecnologia.

Se está pensando em desistir, pense duas, três ou quantas vezes for necessário antes de qualquer ação premeditada. Analise friamente as variáveis. Verifique as possibilidades de reverter o quadro quanto a eventuais atrasos ou erros de programação em seu cronograma, aprenda com seus erros, comece novamente se necessário, mas abandone a frente de guerra somente se realmente não for possível reverter a batalha que está em curso.


João Luís de Almeida Machado

João Luís de Almeida Machado

Consultor em Educação e Inovação, Doutor e Mestre em Educação, historiador, pesquisador e escritor.

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