A cultura da culpa e do erro

"Muitas vezes nossos erros mais nos beneficiam que nos prejudicam" (Rubem Alves)


Um papel amassado em cima de uma mesa de madeira, com um lápis ao lado

Se acertamos não fazemos mais que a obrigação.

Se erramos somos culpados e temos que pagar por isso.

Quem nunca passou por uma situação como esta numa empresa ou na vida que atire a primeira pedra, ou melhor, corrigindo meu erro, que dê um passo à frente, levante a mão ou se manifeste de alguma forma.

O erro, assumido por especialistas e educadores como o caminho a ser trilhado para se chegar no acerto, faz parte (ou deveria fazer) do custo agregado. Muitas vezes é, tantas outras não é, e não me refiro aqui especificamente a custos financeiros propriamente ditos.

No mundo em que vivemos, por mais que as palavras contrariem os fatos, erros podem ser fatais para as pessoas em suas vidas pessoais e/ou profissionais quando deveriam ser, antes de tudo, didáticos e formativos.

Aos erros, em muitos casos, mesmo nas melhores famílias, amizades ou empresas, é agregado o sentido da culpa, quando não da humilhação, da exposição, do assédio moral a que algumas pessoas são submetidas.

Presenciar momentos em que o chefe, do alto de suas prerrogativas e aproveitando-se da hierarquia, chicoteia em praça pública seu subordinado por conta de erros por ele cometidos é algo que diariamente acontece perante os olhos de muitos profissionais.

Há, é certo, a persistência no erro que, praticada apesar de orientações e chamamentos de atenção, levam ao “fechamento da conta” do sujeito na empresa. O que se vê, no entanto, é que quando algum erro acontece ainda que em 99% das situações os acertos tenham prevalecido, vem a culpa e com ela a crucificação precoce do responsável.

Esta Cultura do Erro, estabelecida entre nós porque somos humanos e erramos em nossas vidas, considerando-se como o fez o poeta português Fernando Pessoa que “navegar não é preciso”, ou seja, que não há certezas absolutas ou caminhos totalmente certos, tem enorme peso para as costas de muita gente.

O tempo ajuda a curar as feridas, mas as mágoas e dores permanecem ainda que no inconsciente em alguns casos. A culpa, tão forte e presente na cultura cristã, associada ao pecado, original ou não, causa estragos que podem ser temporários em alguns casos ou mesmo permanentes em outros tantos.

E como então trabalhar com o erro? De que modo seria possível reverter isso favoravelmente as pessoas e a todas as partes envolvidas, como no caso de profissionais e empresas?

O erro, conforme mencionado, deve primeiramente ser assumido como responsabilidade de alguém ou de um grupo de pessoas, não como culpa. Estabelecido este princípio, passa-se para uma etapa imprescindível de exame da situação, para verificar o antes, o durante e o depois, ou seja, onde, como e quando o erro foi concebido e suas repercussões.

O processo deve ser, acima de tudo, didático, como se a pessoa ou a equipe tivessem que progressivamente analisar o making off, a entrega e os resultados finais obtidos a partir de suas ações e realizações.

Não estamos acostumados a fazer este acompanhamento que, diga-se de passagem, é de suma importância na vida e, dentro dela, nos procedimentos profissionais.

Percebido o erro, passa-se para um novo passo, no qual o protagonista do erro ou o time envolvido, buscam as alternativas de revisão do processo, produto ou serviço e constroem uma nova resposta, através da qual superam o erro e atingem a resposta correta para a proposição.

Não é tão simples assim e pode demandar algumas ou mesmo várias tentativas. O importante é persistir e tentar. No caso de serviços ou produtos de uma empresa que se destinam a consumidores, as testagens e amostragens são essenciais para evitar os dissabores da rejeição de todo um trabalho.

E os chefes, neste andamento, como devem proceder? Se são apenas chefes irão ralhar, reclamar, ofender mesmo em alguns casos. Mas se são líderes serão os organizadores do processo de revisão, agindo didaticamente junto a suas equipes para atingir os resultados almejados, orientando as pessoas e não apenas criticando-as.

Falas mais duras ou austeras não são então parte deste andamento? A seriedade e o comprometimento não podem faltar nunca e, em alguns casos, em particular, é certo que o chamamento a responsabilidade de forma mais dura faz parte do aprendizado. O que não pode acontecer é o profissional que exerce cargos de chefia se exceder e tornar o que deveria ser trabalhado e tratado de modo profissional, em alto nível, mesmo que em tom mais sério e austero, numa situação de exposição do subordinado ou, pior ainda, de assédio moral.


João Luís de Almeida Machado

João Luís de Almeida Machado

Consultor em Educação e Inovação, Doutor e Mestre em Educação, historiador, pesquisador e escritor.

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