Lições que vem da Estônia

O país assumiu o 1º lugar no ranking europeu de educação


crianças de várias raças enfileiradas e felizes com cadernos nas mãos

Apesar de ter um dos mais baixos PIBs (Produto Interno Bruto) per capita da Europa, a Estônia assumiu o 1º lugar no ranking europeu de educação, superando a Finlândia, país que havia se tornado referência na área em todo o mundo. O que permitiu a Estônia chegar a esta condição?

É importante lembrar, para início de conversa, que a Estônia é um país que se tornou independente a pouco tempo, após a queda do Muro de Berlim, da dissolução da União Soviética e associado a estes e outros movimentos que ocorreram entre o final dos anos 1980 e início dos anos 1990.

A independência da Estônia ocorreu somente em 1991. Até então a Estônia era uma nação que compunha o mundo socialista governado a partir de Moscou, assim como a Lituânia, a Letônia e a Ucrânia, repúblicas que hoje são independentes, mas que até então eram parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Atualmente os estonianos lideram o ranking europeu de educação a partir dos dados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) pois estão em 3º lugar em Ciências, 6º em Leitura e 9º em Matemática. Apenas como elemento comparativo vale lembrar que o Brasil, por sua vez, tendo por base os resultados do último exame PISA, está na 63ª posição em Ciências, 59ª em Leitura e 66ª em Matemática.

Um dos primeiros compromissos assumidos pelos governantes da Estônia a partir da independência do país, nos anos 1990, foi o de investir em educação e criar políticas públicas permanentes nesta área, independentemente de quem assumisse o governo, a continuidade das ações estaria garantida.

Desde 1996 o país tem em vigor o seu currículo nacional e, norteia os trabalhos com base no mesmo, algo que somente no final de 2017, foi criado no Brasil, com a aprovação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

A primeira semente já estava plantada, ou seja, a de que para colhermos resultados mais certos anos adiante, em educação, é preciso perenidade, criando-se uma cultura de trabalho que tenha flexibilidade para admitir, compreender e usufruir de inovações metodológicas, tecnológicas e didáticas sem que alterações de cunho político modifiquem totalmente o modelo educativo vigente apenas para a conveniência de diferentes partidos políticos que se alternem no poder.

Outra importante ação dos estonianos se refere ao fato de que a qualidade da educação pública tem que ser semelhante independentemente da origem ou condição social do aluno. Na prática isso significa que sejam alunos de origem mais humilde e carente ou mais ricos e abastados, o processo tem que prover para todos, educação que lhes permita o melhor aprendizado, sem distinção. Isso tem garantido para o país um dos melhores índices mundiais em termos de igualdade de condições e aproveitamento por parte dos alunos mais pobres. Esta é, por sinal, uma meta a ser alcançada por países do mundo inteiro, ou seja, diminuir as desigualdades, oferecer melhores condições e permitir a quem tem menos condições ou recursos um futuro melhor. Na Estônia o índice de alunos carentes com notas boas é de 42% e, no Brasil, de apenas 2%.

Prevalece na educação da Estônia um sistema de trabalho baseado no mérito, ou seja, as contratações de diretores, coordenadores e demais gestores ou, ainda, dos professores que irão compor o corpo docente das escolas, não é feita por concurso e não garante a estabilidade do funcionário contratado, como ocorre no Brasil. O que gera a permanência dos docentes e administradores das escolas é a qualidade do trabalho que realizam, auferida pelos resultados obtidos, ou seja, atrelada ao real crescimento e melhoria dos índices da educação estoniana. Além disso, para garantir maior qualidade de ensino, os docentes que trabalham nas escolas públicas da Estônia têm que ter, no mínimo, mestrado concluído.

A princípio, quando o país se tornou independente, os salários pagos aos profissionais da educação não eram tão atrativos, por isso, hoje em dia a Estônia tem professores com idade média na faixa dos 48 anos, elevada para os padrões europeus e mundiais e, há alguns anos, tem se esforçado para tornar a profissão mais atraente para os jovens. Houve uma elevação média de 80% nos ganhos do professorado local, elevando os ganhos para cerca de 1300 euros (que equivalem a 5600 reais).

Outro aspecto marcante para o expressivo resultado da educação na Estônia está relacionado ao investimento anual por aluno feito pelo governo daquele país, que atinge o equivalente a 7 mil dólares (cerca de 26 mil reais). Somente como dado comparativo é preciso lembrar que, no Brasil, não chegamos ao patamar de 7 mil reais por ano (o valor aproximado investido no ensino básico brasileiro é de 6,6 mil reais/ano por aluno).

Não basta, no entanto, que o dinheiro exista e seja destinado a educação, é preciso que ele chegue, seja de fato aplicado e reverta para alunos, professores e escolas, sem que desvios aconteçam ao longo do caminho e façam com que estes valores desapareçam.

Aspecto igualmente importante para o desempenho notável dos estudantes daquela nação nos exames internacionais é que a formação é acompanhada pelas famílias desde que as crianças entram nas escolas públicas locais. As reuniões de pais, por exemplo, são de presença obrigatória para os familiares ou responsáveis legais. Há, inclusive, por parte das empresas em que os pais trabalham, o compromisso de liberá-los para que possam ir à escola quando forem agendados tais compromissos e que, com isso, possam participar, de fato, da formação de seus filhos, o que garante altíssimo índice de presença e, consequentemente, maior atenção e participação dos responsáveis na formação de seus filhos.

As escolas da Estônia trabalham muito com tarefas (mais de 17 horas por semana), dão autonomia para os professores definirem metodologias e estruturas (inclusive físicas) de seu trabalho, promovem ações baseadas na realidade para que os estudantes percebam realmente que os saberes trabalhados nas escolas têm vínculo com o mundo lá fora, estimulam a autonomia dos alunos (incentivam, por exemplo, que as crianças já no Ensino Fundamental 1 sigam de ônibus, metrô, trem, bicicleta ou a pé para suas escolas).

Os professores trabalham com projetos, dá-se valor e ênfase as artes, a robótica e a ações de empreendedorismo, buscando inculcar nas crianças e adolescentes os valores, habilidades e competências que são almejadas pelo mundo em que irão trabalhar quando se formarem.

Há provas, mas isso não é algo regular em todas as disciplinas, as avaliações estão mais centradas na produção de projetos, trabalhos e tarefas. Enfatiza-se a questão do comprometimento e foco nos estudos.

O país também está concentrando esforços na criação de estratégias de ensino nas quais o conteúdo não seja o principal mote da educação, ou seja, que ele seja algo referencial, mas não o centro das ações didáticas, conforme o que está sendo feito já em outras nações bem-sucedidas em educação, notadamente na Finlândia.

Como em qualquer país, também na Estônia há sempre o que melhorar na educação, mas os resultados expressivos pedem a atenção de quem ainda não conseguiu atingir nem mesmo os patamares do que seria considerado satisfatório na área, como o Brasil, por isso mesmo, é importante que as lições que vem dos estonianos e de suas escolas, possam ser conhecidas, apreciadas e entendidas por aqui para que, quem sabe, inspirados nesta história de sucesso, possamos também escrever a nossa.


João Luís de Almeida Machado

João Luís de Almeida Machado

Consultor em Educação e Inovação, Doutor e Mestre em Educação, historiador, pesquisador e escritor.

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