Escolas e professores inovadores

Inovar, o que significa? Esta é uma primeira pergunta a ser feita, afinal de contas, como pensar sobre inovação sem entender o conceito, não é mesmo?


Ilustração de uma mão segurando uma lâmpada e um cérebro acesos.

De acordo com o Dicionário Michaelis, inovar significa "fazer inovações; produzir novidades" ou "produzir ou tornar algo novo; renovar, restaurar".

Parte-se, portanto, de um princípio, de algo já preexistente, de uma estrutura anterior que, de algum modo, precisa de atualização, ou seja, de uma nova roupagem, para que fique mais encorpada, respondendo a demanda do mundo em constante e rápida evolução.

Inovação tornou-se, portanto, algo perseguido e almejado por toda a sociedade, em especial pelos setores produtivos, sequiosos de alterações que permitam aos investidores melhorar seus produtos e serviços, aumentar a produção, atender novos e mais amplos mercados, em escala global.

A educação, em todos os segmentos, mas em especial no ensino superior, tem também buscado caminhos que permitam inovação em seus processos e práticas, o que demanda uma alteração da cultura vigente.

Mudar não é fácil. Em educação, com uma cultura arraigada, que prevalece há tanto tempo, baseada em ações centralizadas por parte de gestores e professores, no uso de recursos que não respondem as demandas do século 21, numa estrutura de comunicação oral unidirecionada, na qual os estudantes são pouco ou nada ativos, tornam-se ainda mais complexas as ações em prol da inovação.

Apesar disso algo está acontecendo no universo das escolas e da educação em geral. O advento das novas tecnologias de informação e comunicação e da internet, em particular, a partir da metade da década de 1990 sinalizou fortemente a necessidade de mudanças.

Isso não foi entendido em sua plenitude, num primeiro momento como algo mais amplo, de âmbito global, como mudança de cultura, mas como um movimento de inserção de recursos diferenciados, desconhecidos e muito poderosos nas salas de aula. A apropriação pelas novas gerações, conforme pudemos perceber, foi rápida, no entanto, desprovida de parâmetros, de um estudo mais detalhado, acontecendo de modo intuitivo e relacionado a interesses imediatos dos jovens usuários e das crianças em geral, ou seja, para seu divertimento e lazer, comunicação e interação com seus pares.

Os adultos, entre os quais os professores, passaram a interagir com os recursos fora da escola, por meio de serviços pioneiros na área, como aqueles oferecidos por bancos, empresas de diferentes segmentos ou instituições públicas. Nas escolas foram vendidos recursos para os docentes sem que, efetivamente, a metodologia e a compreensão de como, de fato, iriam ser úteis na aplicação diária juntamente aos alunos, acompanhasse os softwares e hardwares comprados por seus gestores, públicos ou privados.

Muito do que inicialmente foi realizado e, continua a assim acontecer, significou nas escolas apenas replicar práticas tradicionais em meios ou recursos tecnológicos. A formação, estudo e reflexão em relação ao que o mundo passou a oferecer no século XXI, principalmente, deixou a desejar. Evoluímos de laboratórios de informática, conceito vigente nos anos 1990; para informática educativa, entre os anos 2000 e 2010; atingindo a partir do advento de recursos móveis (mobile) poderosos, como os smartphones e tablets, e o avanço das redes e velocidade de processamento, além do advento de redes sociais e outros canais de comunicação, para uma educação mais preocupada em realmente criar estratégias e modos de ensinar inovadores.

Surgiram então escolas, professores e pesquisadores debruçados sobre o tema desde antes dos anos 2010, a esclarecer que além das tecnologias emergentes, era preciso repensar e inovar em termos de aulas, com estratégias, metodologias e estruturas de ação diferenciadas.

Ensino híbrido, aula invertida, gamificação, programação, metodologia de projetos, compartilhamento de dados e informações, Fab Lab, Maker e outras ações são resultantes deste esforço continuado na busca de alternativas viáveis de ações que realmente alterem o equilíbrio da sala de aula, fazendo com os alunos passivos se tornem protagonistas de sua aprendizagem com o apoio e tutoria de seus professores.

Estas ações, no entanto, precisam ser pensadas dentro do todo da educação, associadas a práticas regulares nas escolas, como as próprias aulas expositivas, por exemplo, entre outras ações, com pesquisas de campo, entrevistas, simulações, produção escrita e registros regulares, muita leitura, desenvolvimento pensamento analítico e crítico, ética e cidadania, entre outras, para que a educação possa, de modo efetivo e consciente, organizado e planejado, acontecer do modo inovador desejado por todos.

Neste sentido entramos, portanto, na consecução do professor inovador, avis rara no contexto atual, já que estamos arraigados a práticas e ideias dos séculos XIX e XX, reprodutivistas, conteudistas, centralizadas nos docentes, sem avaliação continuada dos processos, com uso espaçado e pouco apropriado e efetivo das ferramentas tecnológicas...

Inovador, no caso dos professores, é aquele que apesar das estruturas vigentes, olha ao seu redor, estuda e se prepara para a sala de aula do século 21, dota-se de ferramentas novas e tradicionais e reformula suas ações, se reinventa, cria novas práticas e estruturas, planeja ações em que seus alunos são parceiros na aventura do conhecimento, tornando todos membros de uma ação conjunta, compartilhada, conectada, contextualizada e coerente na construção dos saberes.

Isso é, portanto, como se pode ver, ação consequente, que precisa ser colocada no papel, requisitando uma autocrítica no que tange ao caminho percorrido, a capacidade de se despir de ideias e conceitos vigentes desde sempre na educação, enfrentar oposição aos novos posicionamentos, assumir uma postura de aprendiz, ou seja, colocar-se dentro dos ditames do lifelong learning (aprendizagem por toda a vida), não ter medo de experimentar e de errar, registrar e compartilhar suas ações, agir como um pesquisador o tempo todo e, principalmente, acreditar que é possível mudar.

Não é fácil mudar e, certamente, ainda estamos no início desta necessária e inadiável inovação. Tal mudança exige transformações nos currículos escolares e nos cursos de formação de pedagogos e licenciados que irão trabalhar nas escolas brasileiras nos próximos anos. Além das políticas públicas, as alterações primeiras devem acontecer na mente e no coração de cada educador para que compreendam o tamanho do desafio que tem pela frente e para que, com isso, assumam seu compromisso nesta frente das diárias batalhas já em curso.


João Luís de Almeida Machado

João Luís de Almeida Machado

Consultor em Educação e Inovação, Doutor e Mestre em Educação, historiador, pesquisador e escritor.

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