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Aprendizagem multissensorial na rede pública: como estruturar a formação de professores para metodologias inclusivas

  • Foto do escritor: Jessyca Nascimento
    Jessyca Nascimento
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura
Criança traçando formas com o dedo em bandeja de areia, exemplo de atividade multissensorial na educação infantil

Entenda o que é aprendizagem multissensorial, como ela contribui para a inclusão e quais práticas podem ser aplicadas no cotidiano escolar.

 

Os diversos caminhos que levam a aprendizagem

Quando a Ana entra na sala de aula, ela não deixa o corpo do lado de fora.


Vamos iniciar nossa conversa desse lugar, com essa frase simples que talvez resuma a maior virada de chave que a educação que vivemos hoje pode ter. Durante muito tempo, nós ensinamos como se aprender fosse uma tarefa só da cabeça: sentar quieto, olhar para a frente, ouvir a explicação e copiar. Mas a criança — como lembra a educadora Luciana Brites — não aprende só com os ouvidos ou só com os olhos. Ela aprende com o corpo inteiro. Com as mãos, com a pele, com o movimento, com o cheiro, com a emoção que sente no instante em que algo finalmente faz sentido para ela.

É nesse lugar que falamos de aprendizagem multissensorial.


Duas cenas, um mesmo objetivo: o que muda no cérebro

Vamos imaginar duas cenas: Na primeira, a professora escreve a letra "S" no quadro e pede que as crianças reproduzam a letra dez vezes no caderno. Na segunda, ela pede que desenhem o "S" no ar com o braço bem grande, que sintam a curva da letra numa lixa colada no papel, ou na bandeja com areia, que imitem o barulho da cobra, o "sssss", enquanto seguem o traçado com o dedo. Duas cenas, objetivo comum.


Mas o que acontece dentro da cabeça da criança é muito diferente. Na segunda, várias regiões do cérebro se acendem ao mesmo tempo — e é justamente esse acender simultâneo que transforma uma informação passageira em memória que fica.


O cérebro, afinal, não é um arquivo com gavetas separadas. Ele funciona como uma rede, em que áreas diferentes conversam entre si o tempo todo. Quando um aprendizado chega por vários caminhos — o que se vê, o que se ouve, o que se toca, o que se sente —, ele cria mais pontos de conexão. É como aprender o caminho para casa: se você conhece só uma rua, um bloqueio te deixa perdido. Se conhece várias, sempre há um jeito de chegar.


Aprendizagem multissensorial e inclusão

Para muitas crianças, ter muito caminhos não é um luxo, é a diferença entre entender e não entender. A abordagem pode beneficiar diferentes perfis de estudantes e pode ser especialmente relevante quando a rede busca ampliar as possibilidades de acesso aos conteúdos e participação nas atividades. E, quando uma delas se abre, o que se vê no rosto da criança não é só compreensão: é alívio, é orgulho, é a redescoberta de que ela também é capaz.


A emoção que fixa a aprendizagem

E aqui está o segredo mais bonito e mais esquecido: a emoção também aprende junto. Uma aula que desperta curiosidade, encantamento, um pouquinho de brincadeira, libera no cérebro as substâncias que fixam a memória. Não aprendemos bem aquilo que nos entedia. Aprendemos, e para a vida toda, aquilo que nos toca.


Como aplicar no dia a dia, sem tecnologia cara

Nada disso exige laboratórios caros ou tecnologia de ponta. Exige, sobretudo, uma mudança de olhar. Um pote de areia para desenhar números. Uma música para lembrar a ordem dos planetas. Massinha para modelar as sílabas. Uma caminhada pelo pátio para "sentir" as estações do ano. Teatro para reviver a história do Brasil. São gestos pequenos, ao alcance de qualquer professor e de qualquer família, que reorganizam de dentro para fora a relação da criança com o conhecimento.


Uma mudança de cultura, não uma técnica passageira

É por isso que falar em aprendizagem multissensorial é, no fundo, falar em cultura. Não se trata de adotar uma "técnica nova" na sexta-feira e voltar ao velho modelo na segunda. Trata-se de assumir uma convicção: a de que toda criança pode aprender, desde que a gente esteja disposto a variar os caminhos até encontrar o dela. É trocar a pergunta "por que esse aluno não aprende?" pela pergunta "de que outro jeito eu ainda não tentei ensinar?".


O papel das famílias e dos educadores

Para as famílias, isso significa perceber que a aprendizagem não mora só no dever de casa. Ela está na cozinha que vira aula de medida, no quintal que vira aula de ciência, na história contada antes de dormir.


Para os educadores, significa recuperar algo que a rotina às vezes apaga: a alegria de inventar, de experimentar, de ver a turma inteira envolvida de corpo e alma.


Devolver à escola o corpo inteiro

A ciência há muito confirma o que os bons professores sempre souberam por intuição: aprende-se melhor quando se aprende com o ser humano inteiro. Talvez a maior transformação que a educação possa buscar não seja adicionar mais conteúdo, mais telas ou mais cobranças — mas devolver à sala de aula os sentidos, o movimento e a emoção que nunca deveriam ter saído dela.


Porque, no fim, a Ana sempre entrou na escola com o corpo inteiro. Cabe a todos nós, finalmente, ensiná-la assim também.


Texto inspirado nas contribuições de Luciana Brites sobre estimulação multissensorial e sua relação com a aprendizagem e a alfabetização.

 

Referências

BRITES, Luciana. Estimulação multissensorial: por que ela é importante?. 1. ed. Londrina, PR: Editora NeuroSaber, 2021.


BRITES, Luciana. Multissensorialidade: a ciência por trás do aprendizado que ativa todos os sentidos. Instituto NeuroSaber, 2023. https://institutoneurosaber.com.br/artigos/a-ciencia-por-tras-do-aprendizado-multissensorial/ 


BRITES, Luciana. Como as atividades multissensoriais aprimoram as habilidades de leitura. Instituto NeuroSaber, 2021. https://institutoneurosaber.com.br/artigos/como-as-atividades-multissensoriais-aprimoram-as-habilidades-de-leitura/ 


STEIN, Barry E.; STANFORD, Terrence R. Multisensory integration: current issues from the perspective of the single neuron. Nature Reviews Neuroscience, v. 9, p. 255–266, 2008. https://www.nature.com/articles/nrn2331 


HAHN, Noelle; FOXE, John J.; MOLHOLM, Sophie. Impairments of multisensory integration and cross-sensory learning as pathways to dyslexia. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 47, p. 384–392, 2014.  Impairments of multisensory integration and cross-sensory learning as pathways to dyslexia - PubMed

 


Planneta Responde


1. O que é aprendizagem multissensorial e por que ela importa para a gestão da rede?

É uma abordagem pedagógica que envolve múltiplos sentidos (visão, audição, tato, movimento) no processo de ensino. Para a gestão, o ponto central é que ela amplia o acesso à aprendizagem para estudantes com diferentes perfis, incluindo aqueles com dislexia, TDAH e autismo, o que impacta diretamente indicadores de inclusão e permanência escolar.


2. Como uma secretaria de educação pode estruturar a formação de professores nesse tema?

O passo inicial é diagnosticar o nível de familiaridade das equipes pedagógicas com práticas multissensoriais, seguido por um plano de formação continuada que combine capacitação teórica com adaptação de materiais já disponíveis na rede, sem exigir investimento em tecnologia cara.


3. Essa abordagem exige mudança curricular ou pode ser aplicada dentro da BNCC atual?

Pode ser aplicada dentro do currículo vigente. Trata-se de uma mudança metodológica na forma de ensinar os conteúdos já previstos na BNCC, não de uma alteração curricular formal.


4. Quais indicadores a rede pode acompanhar para medir o impacto dessa mudança?

Indicadores de inclusão escolar, taxas de retenção/evasão em turmas com estudantes neurodivergentes, e indicadores qualitativos coletados via acompanhamento pedagógico e feedback docente são pontos de partida úteis para a gestão.


5. Como equilibrar essa pauta pedagógica com as prioridades estratégicas da secretaria?

Metodologias inclusivas bem estruturadas tendem a reduzir custos futuros com reforço escolar e evasão, o que justifica seu lugar no planejamento estratégico da rede — não apenas como pauta pedagógica isolada, mas como investimento em resultado educacional mensurável.

Jessyca Nascimento é Gerente Executiva de Educação no grupo Vitae Brasil

Sobre a autora

Jessyca Nascimento é Gerente Executiva de Educação no grupo Vitae Brasil, mestre em Educação atua em projetos e políticas educacionais para escolas públicas.



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