Primeira Infância e Primeiríssima Infância: espaços que acolhem, educam e contribuem para o desenvolvimento infantil
- Aline Aparecida Adão da Silva Bertinoti

- há 11 minutos
- 9 min de leitura

Agosto Verde
Investir em espaços para primeira infância é investir no futuro das cidades
Os espaços destinados à primeira infância representam muito mais do que ambientes físicos para o atendimento de bebês e crianças pequenas. São contextos de desenvolvimento, aprendizagem, cuidado, proteção e construção de vínculos. A maneira como esses espaços são planejados e organizados interfere nas experiências cotidianas das crianças e pode favorecer diferentes dimensões de seu desenvolvimento.
Pensar os ambientes da infância, portanto, significa pensar também nas relações que serão construídas neles, nas possibilidades de movimento e exploração, nos materiais oferecidos, na autonomia das crianças e na atuação dos adultos que acompanham.
Primeira e Primeiríssima Infância: compreender para cuidar e educar
No Brasil, o Marco Legal da Primeira Infância, instituído pela Lei nº 13.257/2016, considera primeira infância o período que abrange os primeiros seis anos completos ou 72 meses de vida da criança (BRASIL, 2016). A legislação estabelece princípios para a formulação e implementação de políticas públicas destinadas a essa população, reconhecendo as especificidades e a relevância dessa etapa da vida.
Dentro desse período, os primeiros anos demandam um olhar especialmente sensível. A expressão Primeiríssima Infância é utilizada para se referir, de modo geral, aos primeiros três anos de vida, período marcado por intensas transformações físicas, motoras, cognitivas, emocionais, sociais e comunicativas.
É o tempo das primeiras relações, dos primeiros deslocamentos, dos gestos que começam a ganhar significado, das descobertas realizadas pelo corpo e pelos sentidos e da construção progressiva da autonomia.
O bebê conhece o mundo tocando, olhando, escutando, movimentando o corpo, observando outras pessoas, manipulando objetos e experimentando as possibilidades oferecidas pelo ambiente. Nessa perspectiva, cuidar e educar são ações indissociáveis.
Acolher, alimentar, trocar, conversar, brincar, cantar e acompanhar uma criança durante uma exploração também são ações educativas. A aprendizagem não acontece somente durante atividades previamente planejadas pelo adulto; ela está presente nas relações, nos cuidados e nas experiências cotidianas.
Por que os primeiros anos são tão importantes?
Os primeiros anos de vida constituem um período particularmente relevante para o desenvolvimento humano. O Ministério da Saúde reconhece a primeira infância como uma etapa fundamental para o desenvolvimento infantil, envolvendo aspectos físicos, cognitivos, emocionais e sociais.
“Segundo a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, aproximadamente 90% das conexões cerebrais são formadas nos primeiros seis anos de vida, dado que reforça a relevância das experiências, interações e oportunidades oferecidas às crianças durante a primeira infância” (FUNDAÇÃO MARIA CECILIA SOUTO VIDIGAL, 2025).
Isso não significa que o desenvolvimento esteja definitivamente determinado nos primeiros anos. As pessoas continuam aprendendo e se transformando ao longo da vida. Significa reconhecer, entretanto, que as experiências iniciais possuem especial importância na construção de bases para aprendizagens posteriores.
Entretanto, quando falamos em desenvolvimento infantil, não nos referimos apenas ao acesso à educação ou aos cuidados básicos. O ambiente onde a criança vive, brinca e aprende participa ativamente desse processo.
O ambiente e o desenvolvimento infantil

[Crédito da foto: Acervo Planneta Educação]
Quando reconhecemos bebês e crianças como sujeitos ativos, curiosos e capazes de construir conhecimentos a partir das experiências, o ambiente deixa de ser apenas o lugar onde as atividades acontecem e passa a integrar o próprio processo educativo.
Essa compreensão dialoga especialmente com a experiência educacional de Reggio Emilia, na qual os espaços, os materiais, as relações e as possibilidades de investigação possuem papel relevante na aprendizagem infantil (EDWARDS; GANDINI; FORMAN, 1999; RINALDI, 2012).
Desenvolvimento cognitivo: objetos e materiais variados possibilitam que a criança observe, compare, encaixe, empilhe, transporte, investigue texturas, perceba relações de causa e efeito e construa hipóteses a partir de suas experiências
Desenvolvimento motor: áreas livres e seguras permitem que bebês e crianças experimentem movimentos de acordo com suas possibilidades: rolar, alcançar, engatinhar, apoiar-se, levantar, caminhar, transportar objetos e modificar posições.
As contribuições de Emmi Pikler reforçam a importância de oferecer ao bebê condições para o movimento livre, respeitando seu ritmo de desenvolvimento e evitando antecipar posições ou movimentos para os quais ainda não chegou de maneira autônoma (PIKLER, 2010). Nessa perspectiva, especialmente para os bebês, o chão constitui um importante território de investigação, movimento e descoberta.
imensão social: a organização dos espaços pode favorecer encontros, pequenas interações, brincadeiras compartilhadas e experiências de convivência. As crianças observam umas às outras, imitam ações, aproximam-se, comunicam interesses e começam progressivamente a construir relações.
Aspecto emocional: um ambiente acolhedor e relativamente previsível contribui para a construção de segurança e pertencimento. Reconhecer objetos e encontrar determinados materiais em locais conhecidos permite a criança construir referências do cotidiano.
O espaço físico, portanto, não pode ser compreendido de maneira isolada do ambiente emocional e relacional.
Espaços seguros, acessíveis e estimulantes
Três princípios merecem especial atenção na organização dos ambientes destinados à primeira e à Primeiríssima Infância: segurança, acessibilidade e estímulo.
Segurança
Um espaço seguro não precisa ser um ambiente que impeça a criança de experimentar. Ao contrário, deve oferecer condições para que ela possa explorar, movimentar-se e investigar com segurança.
Isso exige mobiliário adequado, materiais compatíveis com a faixa etária, atenção à circulação, organização dos objetos e acompanhamento atento e responsável dos adultos.
Acessibilidade
A acessibilidade dos materiais também possui importante valor pedagógico. Quando objetos seguros e adequados são disponibilizados ao alcance da criança, ampliam-se as possibilidades de escolhas, iniciativa e participação.
A criança pode olhar, escolher, alcançar, experimentar, transportar, combinar e devolver aos seus lugares. Gradativamente, essa organização pode contribuir para a construção da autonomia, da participação e do sentimento de pertencimento.
Estímulo com intencionalidade
Isso não significa disponibilizar todos os objetos ao mesmo tempo. Selecionar materiais com intencionalidade, evitar excessos e permitir que a criança permaneça durante determinado tempo em uma investigação pode ser mais significativo do que oferecer inúmeros estímulos simultaneamente.
Por que falar em “sala de referência”?
Outro aspecto importante na Educação Infantil é a utilização da expressão sala de referência.
A expressão “sala de aula” historicamente pode remeter a uma organização centrada no professor, nos alunos, em conteúdos e atividades desenvolvidas dentro de determinado espaço de tempo. Para bebês e crianças pequenas, entretanto, a experiência educativa ultrapassa essa lógica.
Na Educação Infantil, a sala de referência pode ser compreendida como um espaço de pertencimento no qual bebês e crianças encontram pessoas, objetos, materiais, experiências e elementos da rotina que lhes permitem construir referências e reconhecer aquele ambiente como parte do cotidiano.
Falar em sala de referência também nos ajuda a compreender que a aprendizagem infantil não está limitada a uma única sala. A instituição inteira pode constituir um território educativo.
A sala funciona como uma referência para a criança, enquanto jardins, áreas externas, pátios, corredores e outros espaços também podem ser explorados e transformados em contextos de aprendizagem, encontro, movimento e descoberta. Essa compreensão aproxima-se das concepções que reconhecem o ambiente como elemento participante do processo educativo e valorizam a construção de contextos capazes de favorecer relações, investigações e diferentes linguagens infantis (EDWARDS; GANDINI; FORMAN, 1999; RINALDI, 2012).
Investir em espaços de qualidade é investir no futuro
Investimentos na primeira infância não devem ser compreendidos somente como despesas relacionadas à educação, saúde ou assistência. Eles representam investimentos no desenvolvimento humano.
Ambientes adequadamente planejados podem ampliar oportunidades para brincar, explorar, movimentar-se, relacionar-se e aprender.
Entretanto, a qualidade do espaço não depende apenas da aquisição de novos mobiliários ou materiais.
É a intencionalidade pedagógica, associada à observação, à escuta e às relações estabelecidas entre crianças, adultos, materiais e espaços, que transforma o ambiente em um contexto potente de experiências e aprendizagens.
Projeto Educação Acolhedora na cidade de Marília/SP: quando o espaço se transforma em experiência educativa

[Crédito da foto: Divulgação Planneta Educação — Projeto Educação Acolhedora, Marília/SP]
Em Marília, essa concepção vem encontrando uma aplicação prática por meio do Projeto Educação Acolhedora, com ações direcionadas à Primeiríssima Infância.
A proposta parte da compreensão de que acolher vai muito além de receber a criança na instituição.
Acolher significa reconhecer a criança como sujeito de direitos, respeitando seus tempos, movimentos, formas de comunicação, interesses e necessidades.
A organização das salas de referência destinadas à Primeiríssima Infância busca dialogar com princípios inspirados nas experiências de Reggio Emilia e nas contribuições de Emmi Pikler já apresentadas neste texto, sobretudo quanto ao reconhecimento da criança como protagonista, à importância do ambiente no processo educativo, ao tempo da criança, à autonomia e ao movimento livre (EDWARDS; GANDINI; FORMAN, 1999; RINALDI, 2012; PIKLER, 2010).
Os ambientes são planejados buscando favorecer a circulação e a movimentação das crianças, com materiais selecionados de forma intencional e, sempre que adequados e seguros, organizados de maneira acessível.
Espelhos, livros, materiais artísticos, instrumentos musicais, elementos naturais e objetos de exploração sensorial e investigativa passam a compor contextos nos quais as crianças podem descobrir diferentes possibilidades.
As salas também recebem oficinas de Arte, Música e Contação de Histórias, ampliando repertórios e reconhecendo as diferentes linguagens pelas quais bebês e crianças pequenas percebem, interpretam, comunicam e expressam suas experiências.
Mais do que entregar espaços organizados, entretanto, o trabalho evidencia a necessidade de formação, acompanhamento pedagógico e reflexão permanente dos profissionais.
É necessário compreender a intencionalidade presente em cada escolha: por que os materiais estão naquela altura? Por que determinadas áreas precisam permanecer livres? Por que evitar excesso de objetos? Por que preservar certa estabilidade na localização dos materiais? Por que organizar o ambiente antes da chegada das crianças?
São decisões aparentemente pequenas, mas que revelam uma concepção de infância e de educação.
A experiência desenvolvida na cidade de Marília demonstra, no cotidiano, como princípios pedagógicos podem sair dos documentos e ganhar materialidade no cotidiano das instituições.
O Agosto Verde nos convida justamente a fortalecer esse compromisso. Cuidar da primeira infância é cuidar das bases sobre as quais inúmeras experiências futuras serão construídas. É compreender que desenvolvimento, aprendizagem, afeto, movimento, cuidado e ambiente caminham juntos.
Por isso, quando uma cidade investe em espaços de qualidade para suas crianças, não está apenas transformando salas.
Investir na primeira e na Primeiríssima Infância é investir no presente das crianças e no futuro de toda a sociedade. E quando os espaços são planejados para acolher, proteger, provocar descobertas e respeitar as diferentes formas de ser criança, eles deixam de ser apenas lugares onde a infância acontece e passam a fazer parte das histórias que essas crianças estão começando a construir.
Planneta Responde
1. Qual é a diferença entre primeira infância e Primeiríssima Infância, segundo o Marco Legal da Primeira Infância?
De acordo com o Marco Legal da Primeira Infância (Lei nº 13.257/2016), a primeira infância compreende os primeiros seis anos completos ou 72 meses de vida (BRASIL, 2016). A expressão Primeiríssima Infância é utilizada, de modo geral, para destacar especialmente os primeiros três anos, período de intensas transformações e desenvolvimento.
2. Por que os espaços da primeira infância influenciam o desenvolvimento infantil?
Porque bebês e crianças aprendem também por meio das relações que estabelecem com o ambiente. Espaços organizados, seguros e intencionalmente planejados podem ampliar oportunidades de movimento, interação, investigação, autonomia e construção de conhecimentos.
3. O que um gestor deve priorizar ao planejar espaços para a Primeiríssima Infância?
Segurança, acessibilidade, circulação, mobiliário adequado, materiais compatíveis com a faixa etária e possibilidades de movimento e exploração estão entre os aspectos fundamentais. O planejamento do espaço também precisa estar articulado à proposta pedagógica e à formação dos profissionais.
4. Por que investir em espaços de qualidade para a Primeira Infância e a Primeiríssima Infância?
Porque os primeiros anos possuem especial relevância para o desenvolvimento humano. Ambientes qualificados ampliam oportunidades para brincar, explorar, interagir, movimentar-se e construir progressivamente autonomia. Investir nesses espaços significa investir no desenvolvimento integral das crianças e na qualidade das experiências oferecidas durante a infância.
5. Por que utilizar o termo “sala de referência” em vez de apenas “sala de aula”?
Porque, na Educação Infantil, o espaço destinado ao grupo não deve ser compreendido somente como local onde o professor “dá aula”. A sala de referência constitui um espaço de pertencimento, relações, cuidados, brincadeiras, investigações e experiências. Ela oferece referências às crianças sem limitar suas aprendizagens a esse ambiente, pois toda a instituição pode constituir um território educativo.
Referências
BRASIL. Lei nº 13.257, de 8 de março de 2016: Marco Legal da Primeira Infância. Dispõe sobre as políticas públicas para a primeira infância. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/l13257.htm. Acesso em 07 ago. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Primeira Infância. Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-crianca/primeira-infancia. Acesso em: 10 ago. 2026.
EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lella; FORMAN, George (org.). As cem linguagens da criança: a abordagem de Reggio Emilia na educação da primeira infância. Porto Alegre: Artmed, 1999.
FUNDAÇÃO MARIA CECILIA SOUTO VIDIGAL. Relatório anual 2025: Cuidar de cada criança é cuidar do país inteiro. São Paulo: FMCSV, 2025. Disponível em: https://fundacaomariacecilia.org.br/wp-content/uploads/2026/03/Relatorio-FMCSV-2025_web.pdf. Acesso em: 10 ago. 2026.
PIKLER, Emmi. Mover-se em liberdade: desenvolvimento da motricidade global. São Paulo: Phorte, 2010.
RINALDI, Carla. Diálogos com Reggio Emilia: escutar, investigar e aprender. Tradução de Vania Cury. São Paulo: Paz e Terra, 2012.
UNICEF. Desenvolvimento infantil. Brasília: Unicef, s.d. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/desenvolvimento-infantil. Acesso em: 07 ago. 2026.

Sobre a autora
Aline Aparecida Adão da Silva Bertinoti atua na área da Educação, com formação em Pedagogia, especialização em Atendimento Educacional Especializado em Deficiência Auditiva e pós-graduação em Gestão Educacional, formações que ampliam seu olhar para os processos de ensino, aprendizagem, inclusão e desenvolvimento infantil.
Atualmente, integra a equipe da Planneta Educação, atuando na Coordenação Pedagógica da Primeiríssima Infância, com acompanhamento das oficinas de Artes, Música e Contação de Histórias. Sua atuação está voltada ao fortalecimento de práticas pedagógicas acolhedoras e intencionais, à formação e ao acompanhamento dos profissionais e à organização de ambientes que favoreçam o desenvolvimento integral, a autonomia, a escuta, a exploração e o protagonismo de bebês e crianças pequenas.

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